Há coisas que as bruxas sabem sem saber como sabem. Sussurros no vento. Padrões nas folhas de chá. O jeito que a luz entra pela janela numa tarde específica de outubro e te diz: hoje, tudo muda.

Minha avó, Seraphine, me ensinou isso antes de morrer. Ela era a Bruxa do Silêncio, guardiã da Biblioteca Arcádia, protetora dos segredos que o mundo preferia esquecer. Quando me passou o grimório ancestral aquele livro de capa prateada que pulsava como coração vivo ela disse apenas:

— Junte os descendentes. O destino se encarregará do resto.

Não disse quando. Não disse como. Apenas: junte.

Como se fosse simples.

Levei doze anos procurando. Doze anos rastreando linhagens fragmentadas, nomes mudados, famílias exterminadas por caçadores ou escondidas por magia. A linhagem de Morwenna minha linhagem era fácil de rastrear. Bruxas mantêm registros. É nossa natureza.

Mas Amara? Lucien? Essas linhagens foram apagadas propositalmente. Como se alguém tivesse tentado garantir que o Vínculo da Lua Velada nunca mais se repetisse.

Até que, numa noite de lua nova (sempre a lua nova, quando os segredos são mais fracos), o grimório me mostrou.

Eu estava sozinha na biblioteca, como sempre. Era tarde ou cedo, dependendo de como você conta o tempo quando vive entre livros antigos. Três da manhã, talvez. A hora em que o véu entre mundos fica mais fino.

Acendi uma vela azul. Sussurrei o feitiço de revelação que Seraphine me ensinou:

“Sanguis ad sanguinem clamat. Nomina mihi monstra.”

Sangue chama sangue. Mostre-me os nomes.

O grimório tremeu.

As páginas se viraram sozinhas, mais e mais rápido, até pararem numa página que eu jurava ter verificado centenas de vezes antes. Mas agora… agora havia algo novo. Ou talvez sempre estivesse lá, esperando o momento certo para ser visto.

Três nomes apareceram em tinta prateada, brilhando como estrelas:

Vampira — Nyx Vesper
Caçadora — Calista Van River
Bruxa — Aveline Merrow

Meu próprio nome me encarou de volta.

Por um momento, não consegui respirar.

Eu sabia, é claro, que era descendente de Morwenna. Mas ver meu nome ali, ao lado dos outros dois, no grimório que tinha pertencido à minha avó e à avó dela e a todas as guardiãs antes…

Era real. Não era uma busca abstrata mais. Era eu.

E de repente, a responsabilidade do que Seraphine tinha me pedido pesou como chumbo nos ombros.

Junte os descendentes.

Porque se não juntasse… todos morreríamos.

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