Hoje eu me peguei desenhando uma rosa negra no canto da parede do quarto.
De novo.
É estranho como certas coisas me atraem sem esforço.
A cor. A forma. A sensação de algo que parece perigoso, mas é puro em silêncio.
Sempre achei que as rosas negras fossem sobre morte. Fim. Sangue seco.
Mas não são.
Elas são sobre resistência.
Sobre beleza que não precisa ser aprovada.
Sobre uma doçura escondida em espinhos.
Como eu.
Por fora, carrego o peso do que sou.
Pele fria. Olhar de vidro. Passos que ninguém ouve.
As pessoas me veem e desviam.
Me chamam de sombria, estranha, vazia.
Mas por dentro…
Eu amo coisas pequenas demais pra serem notadas.
A luz que atravessa a janela às 3h da manhã.
O som da chuva pingando no telhado de pedra.
O cheiro de um livro antigo quando é aberto devagar.
E rosas. Pretas. Sempre as negras.
Porque elas são a prova viva de que algo pode parecer venenoso…
e ainda assim florescer.
Ninguém sabe disso.
Ninguém precisa saber.
Essa noite?
Foi só sobrevivência.
Nada prazeroso. Nada poético.
Só necessidade.
Mas ainda assim, quando lavei as mãos no banheiro escuro daquela boate e olhei meu reflexo no espelho manchado…
Pensei:
Será que algum dia vou parar de sentir culpa por sobreviver?
Acham que vampiros são só luxúria e violência.
Que a gente não sente.
Mas eu sinto. E muito.
A cada toque, a cada mordida, a cada última batida de um pulso contra meu corpo…
Parte de mim desmorona um pouco.
Eu não gosto de matar.
Mas se eu não beber, eu enfraqueço.
E quando fico fraca… eu enlouqueço.
Essa noite foi pesada.
Não pela caçada.
Mas pelo que ficou depois.
O gosto.
O silêncio.
A lembrança de alguém que não deveria mais estar nos meus pensamentos… mas está.
Calista.
Talvez ela tenha deixado mais do que só um perfume no ar.
Talvez tenha deixado um espelho.
E espelhos, pra quem vive nas sombras… são armadilhas.
— Nyx
