“Algumas mudanças são internas.
Outras… começam pelas pontas do cabelo.”
Hoje pintei as pontas do meu cabelo de roxo.
Roxo violeta profundo, como a névoa que cobre as colinas quando o sol decide não nascer.
E ficou… bom.
Aliás ficou muito bom em mim.
Modéstia? Eu deixo pros inseguros.
Sempre amei essa cor. Ela me persegue desde criança.
Enquanto algumas meninas desenhavam com rosa e azul, eu já rabiscava runas com lápis lilás e via a cor roxa pulsar nos olhos de quem mentia.
Roxo é enigmático.
É o meio do caminho entre o espiritual e o sensorial.
A cor de quem ouve o mundo mesmo quando ele silencia.
Hoje, quando me olhei no espelho antigo da sala de encantamentos da biblioteca, soube:
Essa sou eu, em forma de cor.
Mas o motivo de ter feito isso hoje… bom, isso é outro tipo de confissão.
Quando fechei o grimório 27C da ala esquecida, senti um calor diferente subir pela nuca.
O tipo de calor que anuncia magia, ou memória.
Sonhei com Morwenna essa noite.
Ela também usava roxo. Um xale, na verdade mas ele parecia feito de luz líquida.
No sonho, ela me olhava e dizia:
“A cor que você escolhe revela o que você já sabe, mas ainda não quer admitir.”
Fiquei com isso na cabeça o dia todo.
E aí, fui direto pro espelho. Peguei minha infusão tonalizante feita com pigmento de amora, raiz de lavanda e uma gota de essência de lucidez.
Sim, é mais complexo que uma tinta comum. Mas você acha mesmo que eu faria algo básico?
Depois que terminei, ouvi um sussurro no quarto.
Não do mundo externo. Mas de dentro.
A verdade é que eu precisava me lembrar quem eu sou.
A bruxa que enxerga o que os outros ignoram.
A que pressente antes de confirmar.
A que pinta o cabelo roxo não por vaidade…
Mas porque sente que algo grande está chegando e quer estar visível pra ele.
Com as pontas vibrando entre luz e mistério,
🖋 — Aveline
