Biblioteca Arcádia — Ala das Memórias Fechadas
“Alguns herdeiros recebem ouro.
Outros, maldições.
Eu recebi uma missão.”
Hoje encontrei uma carta antiga, guardada dentro de uma caixinha de prata que carrego desde a adolescência.
Era da minha avó. A letra, firme. O cheiro… o mesmo das velhas páginas de grimórios e incensos queimados nas noites em que ela lia o destino como quem costura o tempo.
Ela sempre disse que as linhagens não morrem, apenas se dispersam.
E que um dia alguém teria que reunir os fragmentos.
Na época, achei poético. Agora, percebo que era uma ordem velada.
Sou a última Merrow viva da linha direta — e as vozes do sangue começaram a chamar.
Não é metáfora: às vezes ouço nomes durante o sono.
Outras vezes, vejo rostos que não reconheço, mas que o coração insiste em lembrar.
Minha avó chamava isso de eco de descendência.
Eu chamo de destino impaciente.
Hoje aceitei o que sempre soube: sou a guardiã encarregada de reunir os descendentes da Lua Velada.
E o tempo, como sempre, já começou a correr.
Trecho confidencial do diário. Proibido para os olhos que duvidam.
“Ela sabia.
E agora eu também sei.”
A carta dizia o seguinte:
“Minha pequena Aveline,
Quando o fio lunar se romper pela última vez, procure as duas que ainda carregam o selo no sangue.
Uma nasce do sol, mas pertence à noite.
A outra, do ferro, mas sonha com flores.
Quando elas se encontrarem, o Véu voltará a pulsar.
E você saberá o que fazer.”
Guardei essa carta por anos, como lembrança.
Mas agora entendo — era um mapa.
As duas existem. Eu as encontrei.
Nyx. Calista.
Duas forças opostas, duas memórias reencarnadas do pacto original.
Minha avó, mesmo morta, ainda guia meus passos.
Ela sabia que eu seria teimosa demais para aceitar o destino sem provas.
Então deixou pistas. Símbolos escondidos. Linhas de poder nas margens de um grimório que só eu consigo decifrar.
A missão não é unir personalidades.
É unir sangues que esqueceram de onde vieram.
E talvez… reabrir o vínculo que o tempo tentou apagar.
Hoje escrevo isso com o coração pesado — e as mãos trêmulas.
Porque sinto que o próximo movimento vai despertar forças que dormiram por séculos.
Mas está tudo bem.
Ela me preparou pra isso.
🖋 — Aveline Merrow
