
Tem dias em que acordar é o suficiente para sentir o sangue fervendo.
Sem motivo. Sem aviso. Apenas o peso invisível de algo que não se encaixa no peito.
Hoje foi um desses dias.
O mundo inteiro parecia apertado demais, e o único jeito que conheço de respirar é caçando cada um tem seu jeito, né?
Amarrei as botas, ajeitei a adaga no cinto e deixei que a cidade me engolisse.
A escuridão das ruas sempre teve mais sentido pra mim do que qualquer conversa em voz baixa.
Mas não foi fácil.
Eles estão desaparecendo. Ou ficando mais espertos. Talvez os dois.
As vielas estavam vazias, os telhados silenciosos demais. O tipo de silêncio que cutuca a nuca e deixa os músculos tensos.
Três horas. Foi quanto levei para encontrar um alvo.
Jovem. Arrogante. Boa de fuga.
Péssima de escolha.
O confronto não foi bonito. Nunca é.
Não é poético. É sujo, real, cheio de estalos que ninguém quer ouvir.
Mas foi… necessário.
O som do corpo caindo, o cheiro metálico do sangue no concreto frio isso, por mais estranho que pareça, me devolveu o controle.
Alguns acalmam a mente com música. Outros respiram fundo.
Eu?
Eu caço.
É o meu jeito de não quebrar quando o mundo pesa demais.
E nos dias em que não caço?
Preciso bater em alguma coisa. Sentir os nós dos dedos queimarem, o corpo suar, os pulmões arderem.
Treino até meus pensamentos ficarem em silêncio.
Até o estresse perder força.
É assim que eu encontro equilíbrio entre a lâmina e o impacto dos punhos.
Entre o caos que carrego e o mundo que insiste em respirar no meu ouvido.
Não é bonito.
Mas funciona.
— Calista Van River
