Às vezes, acho que o mundo inteiro se dissolve quando estou pintando.
E quando escrevo… é como se sangrasse sem doer.

Sempre foi assim.
Meu ateliê é meu santuário.
Meus quadros, meus espelhos.
Este diário… meu único lugar seguro.
O único espaço onde não preciso esconder que, por dentro, ainda estou tentando entender quem ou o quê eu sou.

E hoje…
A verdade é simples e absurda:
ela apareceu.

Não sei quem é.
Não sei de onde veio.
Só sei que entrou na galeria como se o tempo tivesse segurado a respiração por um segundo.

Era só mais uma noite de exposição. Mais uma multidão entediada fingindo entender a dor nas minhas telas.
Mas aí… ela.
A mulher de cabelos laranja.
O olhar alerta. Os ombros tensos.
Cada passo dela era um contraste: firme, mas hesitante. Como se tivesse sido empurrada até ali por algo que nem ela entendia.

Eu senti o impacto antes mesmo de saber o porquê.
Não foi magia. Não foi profecia.
Foi curiosidade.
Foi beleza.
Foi mistério.

Ela parou diante de uma das minhas obras mais íntimas.
Aquela floresta com raízes retorcidas e olhos escondidos na sombra.
E ela ficou ali. Imóvel.
Como se aquilo a prendesse.
Ou como se já tivesse estado ali antes.

Me aproximei.
Como sempre faço com quem me intriga.
Falei com calma, tentando parecer casual:

— O que acha da obra?

Ela não hesitou. Disse:
“Enigmática.”

Eu deveria ter me protegido naquele momento.
Mas foi tarde demais.

Tentei ler seus pensamentos como faço com qualquer um.
Estendi minha mente, suavemente.
E o que encontrei foi… nada.

Um silêncio bruto. Um muro espelhado.
Como se alguém tivesse arrancado as janelas da alma dela e trancado tudo lá dentro.

Nunca aconteceu antes.
Nunca.
Nem com caçadores. Nem com bruxas. Nem com criaturas antigas.
E ela não é bruxa — porque com elas, o bloqueio tem textura, força, intenção.
Com ela… não.
Era vazio. Puro. Intocado.

Só ela.

Não consegui ler uma única emoção.
E isso me deixou… vulnerável.
Intrigada.
Obcecada.

A beleza dela é óbvia, claro.
Mas não é só isso….

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