
Eu não sei o que aconteceu comigo hoje.
Ou talvez saiba e só não quero colocar isso em palavras.
Mas se eu não escrever, isso vai me corroer por dentro.
A verdade é simples e vergonhosa:
eu senti ciúmes.
De Calista.
De alguém se aproximando dela.
De alguém tocando o braço dela como se tivesse permissão.
De alguém sorrindo pra ela como se conhecesse seus segredos.
E ela sorriu de volta.
Não como sorri pra mim embora eu nem saiba exatamente como ela sorri pra mim.
Mas sorriu.
E aquele pequeno gesto acendeu algo em mim.
Uma coisa antiga.
Feia.
Instintiva.
Uma chama que ferve em silêncio e te faz desejar que o mundo inteiro pare de respirar por um segundo.
Foi isso que senti.
Eu devia ter ido embora.
Devia ter desviado o olhar.
Devia ter sido racional.
Mas não sou.
Sou vampira.
Sou sangue antigo, instinto, fome, magia adormecida…
e agora, pelo visto, também sou alguém capaz de sentir um aperto no peito por causa de um sorriso.
Quando vi aquele homem encostando nela com confiança como se fosse íntimo meu corpo respondeu antes da minha mente.
Foi automático.
Animal.
Pessoal.
Segui ele.
Apenas observei no início.
Mas quanto mais ele caminhava, mais a sensação crescia.
Ele tinha um cheiro desagradável.
Um odor de maldade escondida.
Aquela podridão que só quem nasceu vampiro consegue captar.
Talvez seja por isso que não parei.
Talvez eu esteja tentando me convencer disso agora.
Ele entrou em um beco.
E eu fui atrás.
Quietamente.
Como sombra.
Como se meus pés soubessem o caminho do pecado melhor que minha cabeça.
Ele nem teve tempo de virar.
Nem teve tempo de pensar.
Só um suspiro.
Um susto.
E nada mais.
O gosto do sangue dele foi amargo.
Pesado.
Cheio de mentiras e intenções ruins.
Nem prazer trouxe.
Não matei por ciúmes.
Pelo menos… não só por isso.
Matei porque ele era podre.
Porque merecia.
Porque se aproximou dela com segundas intenções.
Porque ela não viu o que eu vi.
E porque, por um segundo,
o monstro dentro de mim ficou com medo de perder algo que eu nem tenho.
Sinto vergonha.
E sinto alívio.
E sinto raiva de sentir as duas coisas ao mesmo tempo.
Calista não sabe.
Não pode saber.
Ela já me olha como algo perigoso imagine se soubesse disso.
Não sei o que estou virando.
Mas sei que começou no dia em que ela entrou na galeria.
— Nyx
