
Há silêncios que não nascem da paz.
São apenas feridas disfarçadas, esperando a hora certa para abrir.
Aprendi isso observando o reflexo das velas tremendo sobre o chão da galeria.
A chama nunca está parada mesmo quieta, ela respira. Como eu.
Hoje, o ar parece denso demais, como se o mundo inteiro tivesse prendido a respiração.
Talvez seja o prenúncio. Talvez apenas o eco do que não quero ouvir.
Mas o sangue… ele sempre sussurra antes de gritar.
Alguns chamam de instinto.
Eu chamo de aviso.
Há algo se movendo nas sombras algo que reconhece o meu nome antes que eu o pronuncie.
A noite escuta o que o mundo tenta calar, e eu aprendi a escutar com ela.
Cada ruído, cada pulsar distante, cada lembrança escondida sob a pele.
O silêncio fala, e o sangue traduz.
Sanguis audit omnia.
O sangue ouve tudo.
Inclusive aquilo que tentamos enterrar em nós mesmos.
Talvez o verdadeiro peso de ser quem sou não esteja em viver eternamente,
mas em sentir até o silêncio sangrar.
