A escuridão se estendia como um denso véu de veludo negro, envolvendo tudo em seu abraço silencioso, como um sussurro ancestral que guardava segredos de eras passadas, mas, como todo presságio, a névoa começou a se dissipar, e a lua cheia, majestosa e imponente, erguia-se no céu da floresta.
As árvores, com seus galhos retorcidos, pareciam dedos que testemunharam o passar do tempo, enquanto o ar se impregnava com o aroma inconfundível de terra molhada, de sangue antigo e de um desejo que nunca encontraria paz. Ali, no coração da floresta, encontrava-se Nyx, perdida em meio a um mistério que se desenrolava como uma tapeçaria de sombras e luzes. O manto carmesim que a envolvia, mais profundo que o vinho, pulsava com uma energia que vibrava em silêncio. Seus cabelos, ao sabor da brisa, dançavam como se estivessem vivos. Dentro dela, um peso no peito se fazia sentir; um chamado que ecoava em sua alma, como um conto distante.
A uma certa distância, Calista, despreparada e atenta, via-se na mesma floresta. O frio cortante e o farfalhar das folhas pareciam familiares, quase confortantes. A armadura de couro que aper tava seus ombros não trazia desconforto, tampouco medo; havia apenas uma urgência surda, como se o destino lhe sussurrasse segredos que ainda não conseguia compreender.
Então, ambas avistaram Lucien. Ele estava em pé, imerso entre as árvores, com os olhos ardendo com a chama de um amor tumultuado. Ele segurava a mão de Amara, que tremia, repleta de uma emoção contida que transbordava. O tempo para recuos havia se esgotado, e todos estavam cientes disso.
― Eles não vão nos separar ― declarou Lucien, a voz carregada de uma dor serena que cortava o ar como uma lâmina afiada.
― Nem a morte é capaz ― replicou Amara, com um sorriso que lutava contra o desespero que a cercava, como um farol em meio à tempestade.
Quando Morwenna surgiu, não foi como lenda ou ameaça, mas como alma em chamas, uma irmã que escolheria o amor mesmo diante do abismo. Ela não era o monstro das lendas, nem sombra do que o mundo pintou a seu respeito. Morwenna era luz e abismo. Naquela noite, seus olhos brilhavam com uma determinação inabalável.
Sua presença não era uma ameaça, era amor puro amor de amiga, de irmã de alma. Aproximando-se como um sussurro do vento, traçou símbolos invisíveis no ar, enquanto murmurava palavras que pertenciam a um tempo anterior à própria linguagem.
Encantamento “Vínculo da Lua Velada”
Sanguis pro sanguine, anima pro amore.
Sub luna, cor ad cor.
Elementa custodiant, mors non dividat.
Ego Morwenna: lumen, umbra, sacrificium.
Lucien et Amara: corpus et anima, unum fiunt.
Mortem flecto, fatum retorqueo.
Elementa testantur: terra, ignis, aer, aqua.
Tradução oculta:Sangue por sangue, alma por amor.Sob a lua, coração ao coração.Que os elementos guardem, que a morte não separe
Sob a copa de uma árvore ancestral, tão antiga quanto os próprios clãs, Lucien e Amara se encaravam como se o mundo ao redor tivesse deixado de respirar.
Fios de luz escarlate surgiram do chão como serpentes encanta das entrelaçando seus corpos em um ritmo lento, quase solene. A energia os envolvia em espirais quentes, conectando seus corações como cordas vivas de um destino inevitável. Dois laços se formaram no ar: um em volta de seus pulsos unidos, o outro acima de suas cabeças, curvando-se em forma de coração flamejante. Uma aura dourada começou a brotar do solo, envolvendo o casal em calor e luz, como se os próprios deuses tivessem parado para assistir ao espetáculo sagrado da união impossível. Amara parecia mais humana, o brilho vermelho de seus olhos suavizado pela proximidade de Lucien.

Eu, Morwenna: luz, sombra, sacrifício. Uno Lucien e Amara de corpo e alma. Curvo a morte, dobro o destino. Os elementos são testemunhas: terra, fogo, ar, água.
Seu amor por ele, puro e feroz, tornava-se também sua ruína. Perto dele, seus poderes oscilavam. Sua imortalidade tremia, e, ainda assim, ela não recuou. Porque alguns laços, mesmo quando selados com magia, são escolhas, e ela o escolheria outra vez, mesmo sabendo o preço por amar um caçador.
O silêncio da fl oresta foi rompido por estalos, passos e ecos de aço. Eles não estavam sozinhos. Os caçadores haviam descoberto o que aconteceria naquela noite. Talvez por bruxas que não concordavam com Morwenna, talvez por instinto. Ou talvez porque o amor brilhasse alto demais para passar despercebido.
Vieram como sombras em forma de homens, armados com prata, fogo e ódio. O ritual ainda pulsava no ar quando foram cercados. Lucien avançou, e Amara tentou protegê-lo. Morwenna gritou um aviso em uma língua extinta, mas era tarde demais. Ela foi a última a cair, envolta na mesma luz que tentara usar para salvá-los. E, antes de tudo escurecer, sussurrou uma última prece ao tempo:
― Que esta linhagem jamais esqueça que o amor, mesmo em sangue, é a única magia verdadeira. Assim, os três morreram juntos.
Ninguém narrava essa parte da história. Ninguém sabia que Morwenna também deu sua vida por amor, não por ser uma bruxa, não por desafiar leis, mas por recusar-se a permitir que dois corações que amava fossem despedaçados. Foi o pacto que selou suas almas, um pacto que atravessou gerações, tecendo um fio invisível entre aqueles que vieram após eles.
Nyx despertou com um sobressalto. Os lençóis vermelhos estavam frios, encharcados pelo suor de um corpo que não deveria mais sentir. Levou a mão à garganta, o toque ainda parecia palpável.
Seus olhos, moldados pelas trevas do tempo, demoraram a perceber que tudo não passara de um sonho, mas havia algo mais, um sentimento que não nascia do vazio.
Do outro lado da cidade, Calista também despertou. Seu peito arfava, os músculos ainda tensos. Levantou-se devagar, os olhos explorando a penumbra do quarto. Sussurrou nomes que nunca havia ouvido antes.
― Lucien… Amara?
Recolheu-se na cama, mas o sono não retornou. Ficou ali, escutando o próprio coração, sem saber que, em algum ponto da noite, sua alma havia caminhado lado a lado com alguém que ainda não conhecia.
O sol subia timidamente entre os espelhos de vidro de Nova Iorque. A luz dourada infiltrava-se pelas janelas e telhados, mas nenhuma claridade parecia tocar a escuridão sutil que ambas carregavam ao acordar.
Nyx Vesper, envolta nos lençóis carmesins de seu refúgio noturno, ainda ouvia a voz da bruxa ressoando em sua mente. Seus gestos permaneciam elegantes e contidos, mas por dentro havia algo fragmentado, algo que não reconhecia ou que fingia não reconhecer.
Calista Van River ajustava sua pulseira de couro no pulso, como fazia todas as manhãs, mas, dessa vez, o couro parecia apertar mais do que o habitual. Havia algo diferente nela. O sonho… ou seria uma lembrança? … ainda ardia como uma lâmina sob a pele.
Nyx e Calista ainda não se conheciam. Seus nomes jamais haviam sido pronunciados uma na frente da outra, mas o destino, impaciente, já preparava o reencontro de duas almas que, sem saber, carregavam o eco de um pacto selado sob a lua.
Elas se aproximavam. Sempre mais perto. E eu observava, como sempre observei, mas isso elas só descobrirão no fim.