
Encontrar Nyx foi surpreendentemente fácil.
Vampiros da linhagem de Amara deixam rastros não de sangue, mas de arte. Eles criam compulsivamente, como se precisassem externar as memórias ancestrais que carregam para não enlouquecer.
Levei três dias vasculhando galerias, exposições, leilões de arte underground. E então a vi: uma pintura numa pequena galeria no SoHo. Óleo sobre tela. Uma floresta antiga sob lua cheia. Três figuras duas se abraçando, uma de braços erguidos ao fundo.
O Vínculo da Lua Velada.
Ela tinha pintado o ritual. Mesmo sem saber conscientemente o que era, ela tinha pintado.
A assinatura no canto inferior direito confirmou: N. Vesper.
Procurei o nome. Nyx Vesper. Artista, 28 anos (oficialmente vampiros sempre mentem sobre idade em documentos humanos). Endereço: um loft acima de uma galeria no centro da cidade.
Fui até lá naquela mesma noite.
Não bati na porta. Apenas… fiquei do outro lado da rua, observando as janelas iluminadas no último andar. Através dos vidros, vi sombras se movendo. Alguém pintando com gestos largos, quase violentos.
Estendi meus sentidos não invasivamente, apenas o suficiente para sentir.
E oh, o que senti.
Poder ancestral, denso como melaço. Solidão tão profunda que doía só de tocar. E algo mais… uma fome que não tinha nada a ver com sangue.
Fome de propósito. De pertencimento. De entender por que carregava aquelas memórias que não eram suas.
Você está pronta, pensei. Mesmo sem saber, você está esperando por isso.
Mas Nyx sozinha não bastava.
Eu precisava da caçadora.
Calista Van River foi infinitamente mais difícil.
Caçadores não deixam rastros. É o ponto de serem caçadores. Eles são fantasmas, sombras, nomes sussurrados em bares escuros onde o sobrenatural bebe para esquecer.
Mas eu tinha uma vantagem: a Biblioteca Arcádia.
Minha biblioteca não é apenas livros. É um nexo. Um ponto de encontro entre mundos, protegido por camadas e camadas de magia de proteção tecida por gerações de bruxas. Todo tipo de criatura passa por aqui eventualmente, vampiros procurando conhecimento, bruxas procurando aliados, e sim, ocasionalmente… caçadores procurando pistas.
Eu só precisava esperar.
Levou seis semanas.
Seis semanas observando cada pessoa que entrava, vasculhando cada aura, procurando aquele sinal específico que a linhagem de Lucien carregaria: uma luz interna, fria e prateada, como lâmina de aço sob luar.
E então, numa tarde de chuva, ela entrou.
Não percebi de imediato. Ela era discreta jaqueta de couro escura, cabelo ruivo solto bem simples, mãos enfiadas nos bolsos. Parecia uma estudante universitária qualquer.
Mas então ela passou perto de mim, e senti.
Aço. Determinação. E aquela luz prateada, tão fria que quase queimava.
Caçadora.
Não qualquer caçadora. A caçadora.
Contive a respiração enquanto ela caminhava entre as estantes, os olhos escaneando os títulos com o foco de quem procura algo específico. Parou na seção de história oculta caçadores sempre procuram lá, tentando entender o que caçam.
Puxou um livro: Linhagens Perdidas: Vampiros do Velho Mundo.
Meu coração que geralmente bate devagar, no ritmo tranquilo de quem vive entre livros acelerou.
Ela está procurando algo. A pergunta era: procurando o quê?
Observei-a por vinte minutos. Ela lia com aquela intensidade contida, fazendo anotações ocasionais num caderno surrado. Músculos tensos mesmo sentada, como se esperasse ataque a qualquer momento.
Então, como se sentisse meu olhar (caçadores sempre sentem), ela ergueu os olhos.
Nossos olhares se cruzaram.
Verdes-castanhos, como musgo sob sol. Inteligentes. Desconfiados. Mas havia algo mais ali — uma tristeza enterrada tão fundo que aposto que ela mesma não admitia sentir.
Sorri. Casual. Bibliotecária amigável.
— Posso ajudar a encontrar algo específico?
Ela hesitou. A mão direita se moveu instintivamente para o cinto onde, percebi, havia uma adaga escondida sob a jaqueta, caçadores são sempre desconfiados.
Mas então relaxou. Levemente.
— Só… pesquisando.
— Sobre vampiros?
Um lampejo de surpresa. Depois, defensiva:
— É um interesse acadêmico.
Claro que é, pensei, mas apenas assenti.
— Temos uma seção restrita nos fundos. Textos mais antigos. Alguns em latim, grego… Se estiver procurando realmente entender linhagens, é lá que deveria olhar.
Ela estudou meu rosto por um longo momento. Procurando… o quê? Ameaça? Sinceridade?
Finalmente, lentamente, acenou com a cabeça.
— Talvez eu volte. Obrigada.
Pegou o livro, fez o check-out (nome falso, é claro “Ana Silva”, o nome mais genérico possível), e saiu.
Mas enquanto ela atravessava a porta, virei discretamente a mão e sussurrei um feitiço de rastreamento nada invasivo, apenas um pequeno marcador que me permitiria saber quando ela voltasse.
Porque ela voltaria. Caçadores sempre voltam quando encontram uma fonte de informação.
E quando voltasse… eu estaria pronta.
